Coisas da vida

As letras das músicas atuais, essas inventadas no campo do sem nexo do bate-estaca, não dizem nada, não marcam, não despertam o cantarolar pelo fato de não dizerem alguma coisa que faça parte de uma passagem especial, de uma saudade recente ou das mais antigas. Até mesmo as letras de músicas do Wando, como Moça, contam uma história com cheiro de baseada em fatos reais. Nunca Mais Eu E Você, Ainda Bem, Perduto, da Ornela Vanoni, Dio Come Ti Amo, por aí, mexem com o imaginário do romântico ultrapassado, fora de tempo, fora de época. Não importa. Pois bem, não saberia dizer quando me apaixonei pelas estrelas ou quando o feitiço delas me pegou de jeito, mas o fato é que ainda hoje me enterneço com certas músicas, frases soltas, inclusive algumas poucas que aparecem aqui e ali, pela internet da vida, pinçadas por raros românticos que se refugiam ou buscam efêmeras companhia nos facebooks modernos e que coincidem com o meu pensar, digamos assim. Pouco me importa as rimas, as métricas, as palavras que combinam para fazer de um verso um verso, de uma quadra uma quadra, de um soneto um soneto ou uma poesia uma poesia.

A ordem das palavras nada tem a ver com a ordem dos sentimentos porque esses, sim, fazem sua rima pessoal dentro do peito, onde uma ridícula válvula mitral determina se continuamos vivos ou nos prega um susto quando fibrila. Vi de fato, como uma foto, depois de um hiato longo, onde quase fui preso pela surpresa que não teve força para um susto ou graça no aceno que foi o de menos na coincidência da quase passagem na brincadeira do destino. Vai ver, só para testar se o gostar de um dia ainda mexia ou se o peito queria dizer que se vivia um dia, um dia morria como morreu e ficou só na lápide do nome que se repete por ai, mais comum que nunca, sem remeter ao rosto que passou ao oposto do lado de dentro da porta onde a paixão ficou agonizando e depois morta. E românticos, como sempre, sem saber, continuam acreditando em milagres ou no ressuscitar de uma coisa que foi quando precisou ser e também precisou morrer porque é exatamente assim que são as coisas da vida: um começo, um meio e isso aí. E lá estava ela, na outra ponta de um aceno sem jeito, acanhado, tímido, receoso ou um reflexo sem nexo, sem rima, apenas isso; um aceno educado pendurado no olhar de dois olhos grandes debaixo de sobrancelhas especialmente grandes e que ficaram abertas por séculos, exatamente o que pareceu a fração de segundo da passagem rápida, como tudo na vida, que passa e a gente nem se dá conta.

Quando menos se espera, já passou, como tudo na vida, repito. Esta crônica, por exemplo, é dedicada a um rosto que um dia tivemos na moldura das nossas mãos e hoje, como tudo na vida, mudou de mãos. Coisas da vida, como se vê! Melhor, como se viu...

A. Capibaribe Neto